Clima e Saúde

UM ESTUDO SOBRE CLIMA E SAÚDE

 


Maria Elisabeth Alves Mesquita¹

Introdução

 


                 O crescimento demográfico mundial é fato nítido para a humanidade, e este traz diversas mudanças no meio natural. Podemos citar a diminuição gradativa da fauna e flora, dos mananciais de água potável, o empobrecimento dos solos e as mudanças climáticas juntamente com todos os seus elementos (precipitação, umidade, ventos e temperatura). A natureza está em constante mudança, mas o firmamento da sociedade e seus interesses lucrativos, pós-revolução industrial, fizeram com que estas mudanças tomassem rumos diferentes dos chamados normais da natureza.

                 Dentre todos os problemas ambientais o clima traz uma preocupação considerável, isto quando segundo alguns climatólogos e meteorologistas, os têm como definidor dos tipos de vegetações e de animais, do mecanismo do ciclo d’água, e até mesmo da organização do homem no espaço social. Sendo o clima um fenômeno onde as alterações por ações antrópicas, mesmo que locais, em pequeno espaço de tempo, tomam proporções globais, trataremos aqui do Aquecimento Global um fenômeno atmosférico que está trazendo diversas mudanças no planeta. Em seguida traremos uma explanação sobre o Efeito Estufa, local (ilha de calor) e global considerando a sua presença entorno do globo terrestre, que traz o balanço térmico em nosso planeta, responsável até pela existência e manutenção da vida.  Após estas abordagens, discutiremos sobre um fenômeno urbano apoiado à teoria de Clima Urbano que é a Poluição Atmosférica e todas as suas implicações junto à saúde pública, que unida à dinâmica climática já caótica (aquecimento global e efeito estufa), traz problemas mais graves para a humanidade.  Segundo Fonseca 2004, a saúde se vincula diretamente com o ambiente, entendido como a interação da sociedade com a natureza, de forma indissociável, pois as condições e/ou alterações do meio natural só têm importância para o homem quando passam a ser por ele percebidas ou quando afetam o seu bem estar e o seu modo de vida. E o clima, com suas alterações cíclicas e, recentemente, com alterações inesperadas e danosas para o homem e o meio social de forma geral, certamente é um fator que interage diretamente com a saúde humana.

                 Segundo a Organização Pan-americana de Saúde (2003) , “o clima afeta a saúde humana de diversas maneiras (2003). Furacões, tempestades e inundações matam milhares de pessoas a cada ano e comprometem água e alimentos. As secas provocam fome e desnutrição. Chuvas fortes podem desencadear epidemias de doenças como a malária e a dengue”. Ressaltamos ainda que a atmosfera , possui um importante significado biológico e também econômico. É o recurso natural que mais rápido se contamina e também o que mais rápido se recupera em condições favoráveis.

 

 

Clima

 


Segundo Ayoade (1986) clima é, basicamente, a mesma manifestação das condições da atmosfera, porém enfocada de forma muito mais abrangente, não só no que diz respeito às diferentes áreas do planeta, como ao espaço de tempo estudado geralmente entre 30 e 35 anos, quando se efetua observação dos estados médios dos elementos climáticos ou meteorológicos. Clima é a sucessão habitual dos tipos de tempo numa área determinada da superfície terrestre.

                 Temos então a seguinte interpretação que o tempo é o estado atmosférico predominante num curto período de tempo e espaço. Em geral, é um estado transitório do clima local. O clima é o conjunto dos fenômenos meteorológicos que caracterizam o estado médio da atmosfera em um ponto da superfície terrestre.              Em conseqüência de fatores variados,  existe a diversidade climática mundial. Dentre eles, destacamos a fisionomia geográfica, a extensão territorial, o relevo, a dinâmica das massas de ar, a temperatura dos oceanos, entre outros.         

                 A compreensão das relações entre clima e sociedade envolve outro aspecto importante ligado à questão escalar, explicitada por MONTEIRO (1978) ao reconhecer que: o comportamento atmosférico integrado às demais esferas naturais organiza espaços climáticos a partir das escalas superiores em direção às inferiores; a ação antrópica em derivar ou alterar essa organização ocorre em sentido inverso, ou seja, das escalas inferiores para as superiores.   

                 Os elementos Climáticos são grandezas meteorológicas que comunicam ao meio atmosférico suas propriedades e características peculiares. Os principais elementos são: temperatura do ar, precipitação pluvial, umidade relativa do ar e ventos.  ASSUNÇÃO (1998:06) diz que  os elementos climáticos variam no tempo e no espaço e são influenciados por certos fatores climáticos e físicos. Pois em  escala regional ou local, outros fatores podem ser acrescentados como: altitude, relevo, presença do mar (maritimidade), continentalidade, latitude, tipo de solo, rotação da terra, estações do ano, vegetação, correntes oceânicas, entre  outros. 

                 O desenvolvimento deste trabalho pauta-se na Teoria do Clima Urbano MONTEIRO (1975), haja vista que o referido autor faz uma avaliação da urbanização na criação de um ambiente climático específico, através das alterações dos atributos climáticos.                   Desta forma, a cidade e, consequentemente, sua expansão, modifica o clima em função da alteração da superfície e como conseqüência produz um aumento de calor, pois há modificações na ventilação (edificações verticalizadas), na umidade do ar e ainda sobre as precipitações, podendo ser mais acentuadas.  Ressalta-se, que dentre as conseqüências do crescimento dos centros urbanos há que se destacar as alterações da atmosfera, pois a poluição atmosférica tem um efeito direto sobre a saúde humana podendo causar graves problemas.

Segundo Branco (1989) ao considerarmos uma cidade é preciso partir, em primeiro lugar, do ser humano; em segundo lugar é que será considerada a utilização da natureza pelo homem. (...) A cidade é um ato de cultura, no sentido de que transforme uma paisagem natural em um fato cultural. E podemos afirmar que saem das cidades a maioria dos poluentes atmosféricos em suspensão no ar, e que produzem tantos problemas e mudanças atmosféricas.

Os estudos sobre clima urbano foram, até bem recentemente e inclusive entre os geógrafos, elaborados sobretudo segundo uma abordagem meteorológica, caracterizados portanto por um aspecto mais estatístico que analítico. Segundo MONTEIRO (1976), retardaram a compreensão do clima enquanto fenômeno dinâmico. Foi a partir da concepção de dinâmica atmosférica e de sua inter–relação com as atividades humanas, enquanto fator de causa e efeito sob um enfoque mais geográfico. E em nível teórico a primeira obra sobre clima urbano produzida no Brasil foi a de MONTEIRO (1976). 

 


“O Sistema Clima Urbano é uma proposição de abordagem geográfica do clima da cidade, ou seja, envolve tanto os elementos de ordem meteorológica  da atmosfera quanto os elementos  da paisagem urbana em sua dinâmica, que, conjuntamente formam o ambiente atmosférico da cidade, resultando no conhecimento do seu clima e no levantamento de sugestões para o planejamento da mesma.”  MONTEIRO (1990:19)

 


Aquecimento Global e Efeito Estufa


 

                 Existem mudanças climáticas e variações climáticas. As mudanças climáticas ocorrem em grandes espaços de tempo e as variações climáticas são as oscilações que ocorrem nos vários fatores que juntos interferem no clima. A Terra passou por várias mudanças, alternando períodos de glaciação e interglaciação, onde ocorrem grandes oscilações climáticas. Porém, não se pode afirmar que o clima da Terra está mudando porque toda informação é muito recente.

Quando usamos esta teoria de glaciação e interglaciação, constatamos que o momento atual caminha para o resfriamento o que entra em choque com o Aquecimento Global. Sendo assim não iremos desconsiderar esta teoria, mas justificá-la como estando no centro deste período e a temperatura possui índices altos, e juntamente com a poluição atmosférica, onde partículas de poluentes formam um efeito estufa entorno do planeta, podemos justificar este aumento de temperatura  mundial.

                 Ao  citarmos  Efeito Estufa, devemos ressaltar que este tema inicialmente foi usado como um fenômeno natural criado com a evolução do planeta e seu resfriamento. Onde, na atmosfera e todas as suas camadas formaram gases que criaram um tipo de estufa, gerando assim as condições climáticas atuais, fazendo com que o planeta tenha uma temperatura média de 16ºC e com o Aquecimento Global segundo alguns climatólogos, em 100 anos chegará à 25ºC a média global. Atualmente este termo “Efeito Estufa” é usado para justificar o Aquecimento Global, em que a emissão de gases e poluente formaram outra estufa na troposfera, fazendo com que a temperatura aumente, ou seja, são termos dependentes.

                 Das radiações solares que atravessam as diferentes zonas da atmosfera, parte é refletida, parte é absorvida e uma outra parte menor atinge a superfície terrestre. Uma vez aqui, parte é absorvida e parte é novamente refletida em direção ao espaço. Boa parte dessa radiação é devolvida à Terra por alguns gases, chamados gases do efeito estufa , que são responsáveis pela manutenção da temperatura da superfície terrestre e da vida sobre o planeta.

A concentração maior dos gases do efeito estufa provocou um aumento considerável da temperatura média do globo terrestre, pois uma maior energia refletida pelo sol fica retida. Os CFCs (cloro, flúor, carbonetos), além de destruírem a camada de ozônio, são responsáveis por 15% do efeito estufa.

                 O aquecimento global é o aumento da temperatura terrestre (não só numa zona específica, mas em todo o planeta). Acredita-se que seja devido ao uso de combustíveis fósseis e outros processos em nível industrial, que levam à acumulação na atmosfera de gases propícios ao Efeito Estufa, tais como o Dióxido de Carbono, o Metano, o Óxido de Azoto e os CFCs. Há muitas décadas que se sabe da capacidade que o Dióxido de Carbono tem para reter a radiação infravermelha do Sol na atmosfera, estabilizando assim a temperatura terrestre por meio do Efeito Estufa.

                 A grande preocupação é se os elevados índices de Dióxido de Carbono que se têm medido desde o século passado, e tendem a aumentar, podem vir a provocar um aumento na temperatura terrestre suficiente para trazer graves conseqüências à escala global, pondo em risco a sobrevivência dos seus habitantes. Como podemos perceber a discussão torna-se redundante quando unimos os dois termos.

             Observe nos anexos esquemas que ilustram estes fenômenos.

 


Poluição Atmosférica  e Saúde Pública


 

                 A Poluição é a emissão de resíduos sólidos, líquidos e gasosos, em quantidade superior à capacidade de absorção do meio ambiente ou maior do que a quantidade existente no meio. Quando tratamos de poluição atmosférica, são lançamentos na atmosfera de vastas quantidades de poluentes resultantes de atividades humanas  Os veículos automotores emitem gases como o monóxido e o dióxido de carbono, o óxido de nitrogênio, o dióxido de enxofre e os hidrocarbonetos. As refinarias de petróleo, indústrias químicas e siderúrgicas, fábricas de papel e cimento emitem óxidos sulfúricos e nitrogenados, hidrocarbonetos, enxofre, diversos resíduos sólidos e metais pesados (como chumbo, zinco e níquel). Aerossóis e outros produtos liberam clorofluorcarbonos (CFCs) produtos químicos sintéticos.

                 Esta mesma atmosfera contaminada pode contribuir para a dispersão ou não destes poluentes através dos elementos do clima. A precipitação atua na “lavagem” da atmosfera, às vezes causando chuva ácida, porém diminui a concentração destes sobre alguns centros urbanos. Os ventos podem dispersá-los em um determinado local e levando-os para outro. A umidade torna a atmosfera densa, não deixando ocorrer a dissipação dos poluentes e das bactérias e dos vírus, que no período de baixa umidade sobrevivem com facilidade. A temperatura tem ações parecidas com a umidade, porém quando está alta espalha para vários locais os partículados de poluição e influi na sobrevivência de vírus e bactérias, e quando diminui o índice isto não ocorre.

                 A emissão excessiva de poluentes tem provocado sérios danos à saúde pública, como vários  distúrbios respiratórios, alergias, lesões degenerativas no sistema nervoso ou em órgãos vitais e câncer. Em cidades com alto índice de poluição atmosférica, esses distúrbios agravam-se no inverno com a inversão térmica, onde uma camada de ar frio forma uma redoma na alta atmosfera, aprisionando o ar quente e impedindo a dispersão dos poluentes. Efeitos da Poluição Atmosférica

Segundo a OMS (Organização Mundial da Saúde) o homem, mergulhado na atmosfera que os cerca, faz passar por seus pulmões, em média, 12m3 de ar, por dia. Este ar mergulha no sistema respiratório, atingindo as regiões mais profundas, tomando contato com os alvéolos pulmonares, irrigando uma área de mais de 70m2. O ar deverá transportar o vital oxigênio, mas poderá também levar outros gases menos saudáveis, além de material partículado de tamanho suficiente para atingir os alvéolos, e destes serem removidos e levados para as regiões onde podem ser absorvidos, ou onde vão produzir ação irritante mais ou menos acentuada.  As defesas naturais do homem, contra as impurezas do ar, são muito precárias, entre elas podemos citar:

Secreção mucosa das vias aéreas superiores, que tende aglutinar as partículas sólidas e fixar gases e vapores;

Cilhos que vão desde a traquéia até os brônquios com a finalidade de levar as partículas inaladas em direção a faringe;

Movimento peristálticos bronquíolos, colaborando na eliminação de partículas;

Forma peculiar das fossas nasais, fazendo com que as partículas de maior tamanho sejam precipitadas sobre a base da língua;

Espasmos das cordas vocais e da musculatura brônquica, procurando evitar a penetração de impurezas nas partes mais profundas das vias aéreas;

         Reflexos de tosse e espirro, criando violentas correntes de ar com a finalidade de expulsar substâncias estranhas das vias aéreas.

A determinação da influência da poluição do ar na saúde humana e extremamente complexa e difícil. Exige uma avaliação quantitativa e qualitativa de um grande numero de fatores, tais como a concentração de poluente, duração da exposição, localização da sua atuação, efeitos sinergéticos ou antagônicos, tudo aliado à influência de fatores meteorológicos. Salvo as exceções de casos graves específicos, não há prova científica de que a poluição atmosférica, seja capaz, por si só de causar doença. Os efeitos sobre a saúde do homem podem ser avaliados em quatro níveis:

Ausência de efeitos biológicos apreciáveis pelos métodos atuais de investigação;

Irritação dos órgãos sensoriais;

Efeitos adversos sobre função biológica, podendo chegar a doenças crônicas;

Doença aguda e "morte"

Segundo Mendonça (2004), algumas doenças reagem diretamente às mudanças climáticas; é o caso da dengue. O aumento do índice de ocorrências desta doença acompanha o aquecimento climático. Entre as doenças recorrentes, a dengue representa, atualmente, a mais importante arbovirose que afeta o homem e configura um sério problema de saúde pública no mundo. Nos países tropicais, em especial, é possível observar que as condições ambientais associadas à ineficácia das políticas de saúde pública favorecem o desenvolvimento e a proliferação do Aedes aegypti, principal mosquito vetor.

“A equipe do pesquisador Gyogy Bohm, da Faculdade de Medicina da USP, descobriu que as épocas de aumento da poluição, como o inverno, também trazem mais mortes, um média de 10% a mais que a normal.” (FSP, 23.06.93) “O aumento dos níveis da poluição do ar tem sido associado com o aumento da morbidade e mortalidade e com o aumento de incidência de doenças respiratórias e cardiovasculares.” (ONU, 1993) Segundo o patologista Saldino “Isto mostra que, apesar de não matar, a poluição acelera a morte de pessoas que já estão com a saúde debilitada.” (FSP, 16.09.94)

Notamos assim a importância do estudo da poluição atmosférica unida com a dinâmica climática dos locais em estudo. Demonstraremos  em seguida um breve histórico de acidentes relacionados à contaminação atmosférica, ou mesmo com o clima, afetando a saúde e às vezes a própria  vida humana.

1948 – No período de 27 a 30 de outubro, na Pensilvânia, onde a presença de um anticiclone, seguido de uma inversão térmica conjugada com a ausência de ventos, propiciou sobre a cidade a formação de uma névoa escura durante todo o período, tendo sido registradas 20 mortes e quase seis mil internações entre os 14 mil habitantes da cidade.

1952 - Chuva de granizo, com característica de presença de radioatividade, acontece na Austrália a menos de 3000 quilômetros dos testes nucleares realizados na Inglaterra.

1952 – Houve um episódio que se tornou famoso pela sua gravidade. Os efeitos de uma “névoa negra” começaram a se manifestar através da proliferação de diversas moléstias contraídas principalmente pelos habitantes que sofriam problemas pulmonares e circulatórios. Foi constatado na semana seguinte ao episódio, quatro mil mortes a mais do que esperado. A curva da mortalidade somente normalizou dois meses depois, quando havia se acumulado um total estimado de oito mil mortes além das expectativas.

1953 - Chuva ácida em Nova York. Possível causa: testes nucleares realizados em Nevada.

1980 - No início da década, são detectados casos de problemas pulmonares, anomalias congênitas e abortos involuntários em moradores da região do pólo petroquímico e siderúrgico de Cubatão, Brasil.

1984 - Em Cubatão, duas explosões e o incêndio causados por vazamento de gás causaram a morte de 150 pessoas, em Vila Socó.

1986 - No dia 26 de abril, acidente na Usina de Chernobil, na URSS, demonstrou que o mundo é muito pequeno e que os impactos ambientais devem ser analisados a nível Global. Na Usina Nuclear de Chernobyl, durante a realização de testes, o sistema de refrigeração foi desligado com o reator ainda em funcionamento. Com isso, o equipamento esquentou e explodiu. O incêndio do reator durou uma semana, lançando na atmosfera um volume de radiação cerca de 30 vezes maior do que a bomba atômica de Hiroshima. A radiação espalhou-se, atingindo vários países europeus e até mesmo o Japão. Há previsão de que cerca de 100.000 pessoas sofrerão danos genéticos ou terão problemas de câncer devido a esse acidente nos 100 anos seguintes. Por toda a Europa, houve problemas na lavoura e na pecuária, tornando verduras, legumes e leite impróprios para o consumo.

1987 - Em setembro, vem a público que um acidente com material radiativo Césio 137 havia contaminado dezenas de pessoas, na cidade de Goiânia, Brasil. O acidente aconteceu porque uma cápsula de Césio 137, pesando entre 600 a 800 kg, desapareceu do Instituto Goiano de Radioterapia (o Instituto se mudara e abandonara alguns aparelhos de radioterapia) e foi vendido a um ferro-velho como sucata . Ao tentar quebrar a cápsula, o dono do ferro-velho acabou liberando o pó radioativo, atingindo sua família e pessoas que freqüentavam o local. Pouco depois, estas pessoas apresentaram os sintomas básicos da contaminação: queimaduras por todo o corpo, vômitos e diarréias. Em poucos dias, quatro pessoas morreram vítimas do Césio. Hoje, mais de onze anos depois, os especialistas acreditam que o número de pessoas que morreram ou adoeceram em conseqüência do acidente tenha sido bem maior.

                 Os novos paradigmas das ciências ambientais levam à investigação científica de relações entre fenômenos/eventos do meio natural e do meio social, despida de idéias pré-concebidas que se constituam em limitantes para a busca do entendimento do funcionamento da realidade. Mas, embora muitos sejam os estudos nessa vertente, poucos buscam conhecer as relações diretas ou indiretas entre fenômenos naturais e saúde humana, com exceção de uns poucos estudos de saúde pública e de climatologia aplicada, que tangenciam a questão e se restringem a levantar relações voltadas para a questão do saneamento, doenças de veiculação hídrica, catástrofes naturais, poluição do ar, água e solos.

                 Essa quase ausência de estudos sobre fenômenos naturais e saúde humana é em parte  compreensível, pois exige equipe interdisciplinar trabalhando de forma integrada para a sua realização. O estudo da inter-relação entre ambiente e indivíduo, exige um trabalho cooperativo entre especialistas de diversas áreas do conhecimento, sendo que,  dependendo do tema, pode-se trabalhar conjuntamente com engenheiros, arquitetos, biólogos, planejadores urbanos, psicólogos, geógrafos, e muitos outros. Por exigir profissionais de áreas do conhecimento tão díspares e pouco habituados a trabalhar de forma integrada com os das demais áreas, é necessário que, antes da realização dos estudos seja realizada uma “calibração” entre os profissionais de diferentes formações, o que representa uma dificuldade adicional para as pesquisas sobre a temática. Mas esses obstáculos precisam ser superados, pois as mudanças climáticas globais que vêm ocorrendo recentemente, podem se constituir em fator interveniente de peso significativo nas alterações do comportamento dos indivíduos e das sociedades.

                 Considerando tanto o fato de ser interdisciplinar, quanto o de ser amplo nos assuntos que tratam, esses estudos não utilizam uma abordagem metodológica única. O que determina a escolha da metodologia é o problema, e muitos deles se beneficiam com a utilização de uma pluralidade de métodos. No contexto da psicologia ambiental, por exemplo, todo  trabalho é orientado para um problema ou visa ajudar na resolução de algo prático, sendo que o modelo utilizado freqüentemente é o de ‘pesquisa-ação’, no qual o psicólogo tenta contribuir, ao mesmo tempo, para teoria e prática (GUNTHER E ROZESTRATEN, 1993; RIVLIN, 2003; PINHEIRO, 2003 – Comentado por Fonseca:2004)

                 Essa proposta interdisciplinar servirá de base para a necessidade de se conciliar noções como saúde, segurança, proteção ambiental, gestão sustentável dos recursos e crescimento e desenvolvimento econômico, visando compreender os processos básicos que envolvem a ação humana diante das alterações ambientais, nomeadamente no que diz respeito ao clima, atmosfera e outros.

Essa compreensão torna-se necessária e relevante para uma posterior identificação e avaliação dos efeitos da atividade humana no trabalho, nos transportes, turismo, gestão de desperdícios, urbanização, uso e gestão dos recursos hídricos e dos solos, agricultura e floresta.

 


Considerações


 

                 Os problemas ambientais agravam-se à medida que o processo de urbanização intensifica. Dentre as questões ambientais destaca-se os problemas decorrentes da poluição atmosférica e os níveis da poluição que representam hoje, risco efetivo à saúde da população dos grandes centros urbanos. Ressalta-se, entretanto, que os problemas gerados pela poluição do ar nos grandes centros urbanos não são decorrentes exclusivamente da quantidade e diversidade de poluentes concentrados na atmosfera. É importante considerar a atuação da atmosfera, no sentido de contribuir para melhor dispersar e/ou concentrar poluentes atmosféricos.

Desta forma, a cidade e, consequentemente, sua expansão, modifica o clima em função da alteração da superfície e como conseqüência produz um aumento de calor, pois há modificações na ventilação (edificações verticalizadas), na umidade do ar e ainda sobre as precipitações, podendo ser mais acentuadas. Trazendo assim diversas implicações para a saúde pública.

A busca das relações entre clima e saúde humana que vem ocorrendo timidamente no Brasil, precisa ser estimulada, e as relações dessa interação necessitam ser estudadas, enfocando-se a multiplicidade de aspectos e de fatores ambientais que estão envolvidos.  Os debates sobre preocupações ambientais trazem temas como sustentabilidade e qualidade de vida  e o que vem ocorrendo impactua com estes, precisando assim de discussões mais sérias apoiadas em busca de dados e principalmente ações.

 

Bibliografia



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AYOADE, J.º Introdução à Climatologia para os trópicos. Editora Difel São Paulo, SP, 1986.

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NOTAS

 

* Artigo publicado originalmente no XI Encontro Regional de Geógrafos - Região Centro-Oeste e Tocantins, 2005, Porto Nacional. Anais do XI EREGEO. Porto Nacional : UFT, 2005. v. 01. p. 15-25.

1 Mestranda em Geografia / UFG.  E-mail: geoelisabeth@gmail.com