Educação Ambiental

EDUCAÇÃO AMBIENTAL: Aspectos Históricos e Perspectivas*

 

Sandra de Fátima Oliveira¹

Resumo


Neste artigo é feita uma breve abordagem sobre a evolução sócio-econômica da humanidade, aliada à educação, com o objetivo de possibilitar uma melhor compreensão sobre a necessidade atual de inserção da temática ambiental nas práticas educativas formal e não formal. Além disso, algumas considerações relativas às perspectivas da educação ambiental para o Século XXI, também, são abordadas.

Palavras chaves: sócio-econômico, evolução humana, educação ambiental, educação

 

1. Introdução


                 Para tratar dos aspectos históricos da educação ambiental e possibilitar uma melhor compreensão da necessidade atual de inserção da dimensão ambiental nas práticas educativas formal e não-formal e, também, em diversas atividades da nossa vida cotidiana, foi feita uma breve abordagem sobre o processo de evolução sócio-econômica da humanidade aliado à educação. Não há pretensão de esgotar e nem de aprofundar aqui este assunto, uma vez que a intenção com este texto é reunir informações obtidas através da consulta a alguns autores e sistematizá-las, possibilitando um maior entendimento sobre o tema proposto.

                 Para uma melhor caracterização desse processo evolutivo, serão considerados como pilares mestres da nossa análise a evolução humana e as relações entre ser humano/natureza, acompanhando os diferentes momentos de transformação e apropriação dos recursos naturais por parte das diversas formas de organização sócio-econômica da humanidade. Após este entendimento, serão abordadas algumas considerações relativas às perspectivas da Educação Ambiental para este século que está se iniciando.

 

2. Evolução Sócio-Econômica da Humanidade e a Educação


                 O ser humano entrou em cena sobre a superfície da terra quando já havia transcorrido 99,98% da história do Universo, que é de 15 bilhões de anos. Há 10 milhões de anos os primatas “superiores”, que não são nossos ancestrais e sim nossos primos irmãos, viviam pulando alegremente de galho em galho nas savanas africanas. Durante milhões de anos, esses primatas foram evoluindo e, por volta de 3 milhões, apareceram os primeiros hominidas bípedes. Apesar de já fabricarem alguns utensílios e abrigos bastante rudimentares, eles viviam como outro organismo qualquer, coletando o que a natureza oferecia, ou seja, participavam da teia alimentar, do fluxo energético. Desta maneira, sua relação com a natureza estava ligada única e exclusivamente à questão da sobrevivência.

                 Por volta de um milhão de anos, os primeiros hominidas já eram plenamente humanos e tentavam domesticar o fogo. A partir desta época, diversos grupos humanos começaram a inventar e empregar instrumentos para suprir suas deficiências na obtenção de alimentos – passaram a caçar e pescar -construir abrigos e usar o fogo, dando início ao processo de independência da natureza.

                 Apesar de já desempenharem papel de depredadores, as modificações ambientais produzidas por suas ações não chegavam a provocar desequilíbrios ecológicos, pois todas as práticas - coleta, caça e/ou pesca – atendiam somente às necessidades básicas do grupo. A economia era de subsistência, sem a produção de excedentes. Nesta fase a natureza mostrava ser, também, fonte de alegria, beleza, identidade e inspiração para a arte, música e religião.

                 Há 100 mil anos diversos grupos já enterravam seus mortos com rituais e flores, e há 40 mil anos vários grupos já se comunicavam através da linguagem. Durante esta fase, a interação com a natureza, o profundo respeito pelos ritmos naturais e a percepção sofisticada que tinham dos sistemas naturais eram repassados de pai para filho.

                 O maior domínio sobre a natureza se deu há 10 mil anos, quando os primeiros grupos de seres humanos passaram a domesticar espécies, tanto animais quanto vegetais. Iniciou-se, assim, o processo de transformação dos habitats naturais em pastagens, imprimindo diversas e, em algumas regiões, profundas modificações nos ecossistemas. Até este estágio evolutivo, os seres humanos viviam em uma sociedade sem classes e mantendo uma relação de equilíbrio com os ecossistemas naturais, aos quais ele pertencia como ser biológico.

                 A partir do momento em que os seres humanos passaram a cultivar suas espécies vegetais e a utilizar os animais como força motriz, descobriram a agricultura (Período Neolítico - 6 mil anos até final da Idade Média). Praticando esta nova atividade deram início, de modo marcante, ao controle sobre a natureza e, conseqüentemente, à degradação dos ecossistemas, transformando radicalmente sua economia, marcada pelo domínio no abastecimento de alimentos. Este fator levou a humanidade a superar uma grande barreira que limitava o crescimento populacional.

                 É claro que os grupos humanos que começaram a desenvolver a agricultura, primeiramente de forma itinerante e através da cultura de horta, experimentaram um trabalho mais árduo, exigindo mais conhecimento e um caráter coletivo de responsabilidades para executar diversas tarefas, tais como: seleção de plantas, de sementes, de solo mais férteis e a distinção de aspectos climáticos, além das atividades complementares de coleta, caça e construção de instrumentos.

                 Através da atividade agrícola, os humanos passaram a intervir na natureza através do trabalho. Para BOFF (2002), intervir é trabalhar. O trabalho é o meio maior de forjamento da cultura. Ela não só cria instrumentos e aparatos tecnológicos para transformar a natureza, como também suscita conteúdos da consciência, formas de sentir, de valorar, de se relacionar psicológica e socialmente com os outros.

                 Cabe ressaltar que, segundo DIAMOND (2001), as atividades agrícolas não começaram a ser praticadas simultaneamente por todos os grupos humanos existentes à época. Aqueles que tiveram a possibilidade de domesticar espécies animais e vegetais, de praticar a agricultura, eram compostos por maior número de indivíduos, e dentre estes alguns disponíveis para criar/inventar, por isso conseguiram desenvolver tecnologias cada vez mais avançadas.

                 Estas bases para o desenvolvimento facilitaram a vida das comunidades, possibilitaram a produção de excedentes, tanto agrícolas

quanto pastoris, os quais eram trocados entre os grupos, permitiram a manutenção e o incremento da população, aportando meios para o surgimento das primeiras sementes urbanas, da divisão da sociedade em classes e o início de uma nova atividade: o comércio.

                 Com relação à educação, cabe salientar que durante todo o desenvolvimento sócio-econômico da humanidade até o início da prática da atividade agrícola, a educação dava-se através de uma relação natural entre a teoria e a práxis, cumprindo uma função essencial nessas sociedades sem classes que viviam uma relação harmônica com a natureza. Esta educação, de acordo com MEDINA (1996), tem sido chamada de funcional e caracteriza-se por ser inconsciente, por impregnação, por presença, ou seja, são sujeitos da educação todos os membros da sociedade. Um exemplo atual desse tipo de educação pode ser observado em algumas comunidades indígenas e na transmissão e aprendizagem da língua materna.

 

3. Os Mundos Grego, Grego-Romano e a Idade Média


                 No Mundo Grego, o sistema escravista é sustentado pelo sistema filosófico, no qual a essência humana corresponde ao ser humano livre, que é o sujeito da Educação. O escravo não era considerado humano, por isso não há contradição, este continuou sendo sujeito de uma educação funcional e prática.

                 Já no Mundo Grego-Romano, a organização social estava dividida em classes, entre o trabalho manual e intelectual, entre a teoria e a prática, entre os homens que pensavam e os que faziam, salientando a diferença entre o conhecimento e a transformação do mundo por meio do trabalho. Esta separação exerce, até os dias atuais, uma influência negativa na educação, como ressalta MEDINA (1996).

                 Nessa sociedade, nem todos os seus membros eram sujeitos de igual educação, pois a educação filosófica e científica praticada à época era

privilégio de alguns, e não um instrumento para a transformação do mundo.

                 Durante a Idade Média, tanto a cultura quanto a educação permaneceram dentro das Universidades, nas quais somente tinham acesso o clero e parte da nobreza. Durante este tempo, a concepção de ser humano se modificou e a divisão entre senhores e servos, alicerçada na fé religiosa, era aceita como natural. Aos servos era destinada uma educação religiosa e prática e, desta forma, obteriam o paraíso.

                 Os seres humanos passaram a transformar a natureza através do trabalho, esqueceram seu lugar como ser natural, começaram a perder sua identidade biológica, e, a partir daí, houve um aumento da deterioração dos recursos naturais, transformando diversos ecossistemas, principalmente aqueles representativos das áreas de cultivo, como as planícies de inundação dos rios. Contudo, a velocidade de regeneração da natureza se equilibrava com a velocidade e intensidade de sua exploração. Dessa forma, pode-se considerar que as relações entre ser humano/natureza ainda eram harmônicas, uma vez que havia a possibilidade de regeneração e de equilíbrio dos ecossistemas.

                 Do surgimento da espécie Homo sapiens até o final da Idade Média (Século XVII), as formas de economia eram, a princípio, de subsistência e agrária, e posteriormente, quando atingiram a produção de excedentes, estes passaram a ser trocados entre os grupos dando origem à economia comercial. Apesar de já haver sociedades estratificadas em classes, todo este tempo representa o período pré-capitalista da humanidade, no qual o que se produzia era repartido entre a população, não havia excedentes e nem acúmulo de capital. Se houvesse a produção de excedentes, estes poderiam tanto ser trocados, quanto abastecer as festas religiosas.

 

4. O Surgimento da Indústria e as grandes mudanças


                 A revolução industrial, final do Século XVII, foi marcada por uma drástica modificação na economia humana e um aumento acentuado na exploração irracional dos ecossistemas naturais. As relações econômicas entre produtores e consumidores foram substituídas aos poucos por múltiplos escalões de intermediários, os quais iniciaram o processo de acumulação de capital, originando um novo sistema de desenvolvimento: o capitalismo.

                 Neste sistema, alguns passaram a ser donos dos meios de produção, a população cresceu, se diferenciou, tornou-se sedentária. Paralelamente, a divisão de trabalho se acentuou e a exploração e uso dos recursos naturais aumentou tanto em qualidade quanto em quantidade, reforçando os processos de transformação, além de gerar escassez e saturação dos recursos naturais.

                 O excedente passou a ser produzido em escala cada vez mais acelerada para atender as necessidades decorrentes do aumento populacional, com níveis de exigências e necessidades de consumo cada vez maiores.

                 A indústria, desde seu surgimento, utiliza a matéria-prima, assumindo parte do processo de degradação, imprimindo nela um ritmo conveniente para si e confia à natureza, que atua sem desígnios pré-estabelecidos, a reconstrução desta matéria-prima transformada e a última etapa do processo de decomposição, que é a degradação dos resíduos industriais. Deste modo, a finalidade de evitar a escassez e a saturação dos recursos naturais fica prejudicada, porque a velocidade de regeneração é menor que a de consumo e produção de resíduos; conseqüentemente, a esperada renovação não acontece, pelo menos na escala de tempo desejada. O resultado é óbvio: a quantidade de matéria-prima torna-se precária e os resíduos acumulados sobrepassam a capacidade de recuperação dos ecossistemas, causando escassez e poluição. Em última instância, a indústria vem transformando os recursos naturais com uma rapidez que não favorece a sua renovação, e nem sequer o próprio consumo. O impacto sobre a natureza vem assumindo proporções gigantescas.

                 Nesta época, com todas as suas características especiais, produziu-se uma mudança qualitativa tanto nas formas de relação do ser humano com a natureza quanto dos humanos entre si, modificando-se totalmente as relações de trabalho, passando de um sistema feudal a outro contratual, alicerçado na exploração humana.

                 Com a Revolução industrial, o avanço do conhecimento científico e o aparecimento das formas de produção capitalista, onde perfilava a burguesia como classe revolucionária, deram origem a um novo processo educativo, no qual teoricamente todos os membros da sociedade seriam sujeitos de igual educação.

                 Para responder a essa nova necessidade, criaram a escola pública, cuja ideologia era reformar a sociedade, pregando a igualdade entre os humanos, a fraternidade, passando de uma sociedade feudal à contratual.

                 Surgiu, então, a idéia, fundamentada na democracia burguesa, de escolarizar a todos como necessidade do mercado de trabalho, tornando a educação pública um fenômeno político e reprodutora das relações econômicas de produção, preparando a mão de obra que o capital exigia para seu desenvolvimento.

                 A educação pública, fruto dessa nova estrutura social, tinha, conforme SAVIANI (1988), o mestre como o soberano na escola, porém era o servidor das estruturas socioeconômicas capitalistas. Surgiu como produto da escola pública a pedagogia da essência, com sua relação autoritária entre educando e educador que responde à mesma estrutura social de dominação: dono de produção e classe trabalhadora que vende sua força de trabalho.

                 Esta escola pública mostrava claramente uma contradição, pois desempenhava um papel reprodutor das condições sociais vigentes ainda não resolvidas, como afirma MEDINA (1996).

                 Os seres humanos se tornaram, principalmente no ocidente, cada vez mais afastados e distantes da natureza, perderam totalmente sua identidade biológica. A Terra, antes tida como orgânica, passa a ser compreendida como uma máquina fornecedora de matéria-prima para ser dominada.

                 O processo de urbanização, representado como remanescente rural e emergente da revolução industrial, caracterizou-se, desde seu surgimento, como um centro consumidor especializado em recursos naturais. Atualmente, a cidade grande dá às pessoas a impressão de liberação total da natureza. Suas necessidades em termos de energia, alimentação, comércio, entre outras, parecem ser satisfeitas a partir do espaço determinado e por elementos que nada devem aos recursos naturais, chegando até a configurar a falsa alienação do humano urbano, do ambiente natural ao qual ele também pertence.

                 A urbanização vislumbrava criar este ambiente humano, procurando delinear a organização e funcionamento do espaço social, em uma tentativa de minimizar o impacto deste contexto. Entretanto, tudo indica que esta consonância está longe de ser alcançada, principalmente quando se observa que as intervenções antrópicas são impostas por um processo de organização das atividades produtivas, baseadas no consumo, no qual os fatores ecológicos se contrapõem a fatores econômicos como um dos determinantes mais importantes na intervenção da natureza.

                 Nesta era industrial, caracterizada por uma economia capitalista, na qual se produz excedente e acumulação de capital através da mais valia gerada pelo trabalho operário e pela apropriação privada dos recursos naturais, é liderada por uma única norma: a de obter maior lucro em menor tempo possível. Neste sistema se repartem socialmente os custos dos danos ambientais e são apropriados, privadamente, benefícios da exploração da natureza e do trabalho humano. Este processo foi acompanhado pela urbanização acelerada.

                 Quando o capitalismo se consolida como sistema de desenvolvimento e a burguesia como sua classe dominante que necessitava se manter no poder, a pedagogia da essência que se fundamentava, mesmo que teoricamente, na igualdade entre os sujeitos da educação, passa a não lhes servir mais. Uma vez que podia fornecer instrumentos para a compreensão, interpretação e transformação do mundo.

No início do Século XX foi proposta uma reformulação da escola e surgiu a Escola Nova, proposta que acabou sendo reduzida a uma pedagogia da existência, fundamentada nas desigualdades e mantenedora das bases da sociedade capitalista. Com a Escola Nova começou o processo de degradação da escola pública e da desvalorização social da categoria docente.

                 Os sistemas educacionais públicos não se adequaram às idéias da Escola Nova, especialmente na América Latina, resultando em grandes prejuízos para a educação da classe trabalhadora. Por outro lado, a educação das elites melhorou, pois somente as escolas privadas tinham estrutura suficiente e equipamentos para desenvolverem com êxito a metodologia da Escola Nova. Desta forma, a educação atuou como mecanismo de recomposição da hegemonia burguesa, coincidindo historicamente com a expansão capitalista, que começa na América Latina na década de 30, chegando ao seu ápice na década de 60.

                 Coincidindo ainda com a expansão capitalista, a divisão internacional do trabalho e o surgimento das multinacionais, com seus processos de homogeneização do consumo como necessidade de ampliação dos mercados e a transferência de padrões culturais, surgiu na educação a Pedagogia Tecnicista, na primeira metade do século XX. Esta sustentava que o processo educativo deveria ser objetivo e operacional – igual ao trabalho fabril – no qual se destaca o papel do planejamento como elemento fundamental. A educação tornou-se mecanizada e os meios utilizados eram determinados exteriormente pelos sistemas econômico e social dominante. Surgem metodologias educativas como: ensino por tv, ensino programado, a indústria do livro didático. Observa-se aí um maior aprofundamento do processo de desvalorização da atividade docente, que se transforma em um executor de planos elaborados pelos outros.

                 Nesta época, o avanço do imperialismo internacional, as relações entre os seres humanos e a natureza apresentam evidentes sintomas de deterioração, o que levou a uma tomada de consciência social dos primeiros problemas graves.

                 A divisão do mundo em países centrais e periféricos retrata a situação atual, caracterizada pela Revolução Científico-Tecnológica e consequentemente pela divisão internacional do trabalho que reflete uma distinção entre o pensar e o fazer. A educação também reflete esta situação.

Os países centrais/desenvolvidos produzem e criam conhecimentos, têm uma ótima educação destinada às elites e centralizam todos os processos de investigação técnico-científico mais especializados. Enquanto que nos periféricos nota-se uma crescente deterioração da educação como um todo e em especial aquela destinada às classes populares, a qual, segundo MEDINA (1996 e 2002), se limita à reprodução de conhecimentos. Já as camadas médias têm acesso a uma reduzida e controlada educação técno-científica, impregnada da fragmentação imposta pelo paradigma positivista e sua racionalidade instrumental e econômica, com seus estreitos pontos de vista.

 

5. Os loucos anos 1960, suas repercussões e o surgimento da educação ambiental


                 As grandes manifestações dos anos 60, século XX, pregaram novos modos de sentir, agir e pensar, pela liberalização da mulher, em favor dos negros e também pelas questões ambientais e da educação, criticando a educação tradicional e as teorias tecnicistas que visavam a formação de indivíduos eficientes e eficazes para o mundo do trabalho. É que o paradigma positivista da ciência já não conseguia dar resposta aos novos problemas, caracterizados pela complexidade e interdisciplinaridade.

                 No início da década de 1960, os problemas ambientais já mostravam a irracionalidade do modelo econômico, mas não se falava em educação ambiental.

                 De acordo com diversos autores, a expressão educação ambiental foi pela primeira vez colocada, em 1965, numa Conferência de Educação da Universidade de Keele, Inglaterra. Além disso, houve a recomendação de que esta educação ambiental deveria se tornar uma parte essencial da educação de todos os cidadãos. Contudo, esta educação ambiental era definida como conservação ou ecologia aplicada, e a disciplina para a sua inserção seria a biologia.

                 Um fato interessante aconteceu em 1968, a UNESCO realizou um estudo sobre meio ambiente e a escola entre seus países membros e concluiu que a educação ambiental não deveria constituir-se numa disciplina específica, tendo em vista sua complexidade e interdisciplinaridade das questões ambientais.

                 Neste mesmo ano, o Clube de Roma² começou a se reunir e em 1972 um dos relatórios resultado desta tarefa foi publicado. Este relatório intitulado “Os Limites do Crescimento” trouxe um modelo inédito para a análise do que poderia acontecer se a humanidade não mudasse seus métodos econômicos e políticos, ou seja, caso se mantivesse o ritmo de crescimento a qualquer custo, sem levar em conta o custo ambiental, chegaríamos ao limite do crescimento, ou na pior das hipóteses, ao colapso.

                 Como resultado dos agitados anos 1960 e do relatório Limites do Crescimento, a ONU organizou e realizou em 1972, na cidade de Estocolmo, a 1ªConferência sobre Meio Ambiente Humano. Nesta conferência a temática central girou em torno da possibilidade de esgotamento do petróleo, uma vez que estávamos no meio da crise desse recurso e de outros não renováveis. Além deste tema, a questão da educação ambiental também foi abordada2.

                 O grande marco mundial sobre educação ambiental foi a 1a. Conferência Intergovernamental de Educação Ambiental, realizada no ano de 1977, em Tibilisi, na Geórgia (ex-URSS). Foi desta conferência que saíram as definições, os objetivos, os princípios e as estratégias para a educação ambiental, que até hoje são adotados em todo mundo.

                 A década de 80, apesar dos grandes transtornos na economia e dos tristes recordes em tamanho de acidentes ambientais, foi marcada por uma consciência generalizada de que os problemas ambientais não afetam a um ou outro país isoladamente³, sendo que transcendem os limites geopolíticos. Quando se refere a eles, devemos considerar o Planeta Terra como uma totalidade em movimento, onde a modificação, a deterioração ou exaustão dos recursos naturais ou transformação dos ecossistemas, não atingem somente um grupo social, em cujo espaço geográfico se produz, mas sua repercussão se dá na totalidade do sistema.

                 Nos países desenvolvidos e nos organismos internacionais, surgiu a preocupação e a necessidade pela busca de soluções, enquanto que, nos países subdesenvolvidos a preocupação central era como encontrar estilos de desenvolvimento que não conduzissem aos mesmos erros cometidos pelos países desenvolvidos, porém que permitissem a superação de suas crises estruturais de pobreza, analfabetismo, falta de saneamento, dentre outros.

                 No Brasil, na década de 1980, os setores da educação e meio ambiente ganharam grandes avanços, conseguindo as bases legais para a união oficial entre a educação e a defesa do meio ambiente. O país ganhou novas leis ambientais, as quais incluíram a educação ambiental, como: Lei 6.938/81 que institui a Política Nacional do Meio Ambiente, que impõe a obrigatoriedade da educação ambiental em todos os níveis de ensino e a Constituição Federal de 1988, com seu Capítulo do meio ambiente, que tornou a educação ambiental obrigatória em todos níveis de ensino, dentre outras atribuições.

                 A década de 1990 iniciou-se com a realização da Conferência sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento – Rio/92, na qual nasceram documentos importantes que estão entre as principais referências para quem quer praticar educação ambiental: Agenda 21, A Carta da Terra, A Carta Brasileira para Educação Ambiental e o Tratado de Educação Ambiental para Sociedades Sustentáveis. Além disso, ainda nesta década aconteceu a 2a. Conferência Intergovernamental sobre Educação Ambiental na Grécia, em 1997.

                 No Brasil, em 1994, ficou concluído o Programa Nacional de Educação Ambiental (PRONEA) e em 1997, os Parâmetros Curriculares Nacionais (PCNs). Nestes últimos é indicada a inclusão da educação ambiental no currículo das séries iniciais de forma transversal. Isso, de acordo com MEDINA (2002), implica na introdução de um processo de inovação educativa, que envolve tanto professores quanto alunos e comunidade, comprometendo ao mesmo tempo as instâncias decisórias e responsáveis, como as secretarias de educação. As universidades, como instituições responsáveis pela formação de professores para o ensino básico, não podem permanecer alheias às novas necessidades sociais.

                 Em 2002 foi regulamentada a Lei da Política Nacional de Educação Ambiental, através do Decreto 4.281 do poder executivo. Esta lei, em seu Artigo 5o,trata da inclusão da educação ambiental em todos os níveis de ensino, especificando seus princípios gerais e as competências dos órgãos públicos e privados e, o Artigo 6o,  trata dos programas de educação ambiental integrados às diversas atividades que envolvem a questão ambiental.

 

6. A Educação Ambiental para o Século XXI    


                  O ser humano perdeu suas identidades biológica e cultural ao longo de sua história evolutiva sócio-econômica. Encontramo-nos atolados numa crise cultural e de pensamento, principalmente quando há a tomada de consciência de que o modelo cartesiano de pensar começa a esgotar as estratégias que moldaram um ser humano dolorosamente fraturado e permitiram imaginar o mundo pautado pela tirania da ordem.

            na construção coletiva do conhecimento, na ação reflexiva e consciente e nas mudanças éticas de comportamento tendentes a concretizar processos de tomada de decisões, participativos e democráticos por toda comunidade. Além disso, a EA deverá possibilitar o desenvolvimento afetivo e humano e a passagem da ética antropocêntrica para a ética biocêntrica para o exercício pleno da solidariedade, da cidadania, incorporando na mente e no coração humanos a sua identidade biológica.

                 Para MEDINA (1997 e 2002), a EA deve ser entendida como um processo que consiste em propiciar às pessoas uma compreensão crítica e global das questões ambientais, para elucidar valores e desenvolver atitudes que lhes permitam adotar uma posição crítica e participativa a respeito das questões relacionadas com a conservação e adequada utilização dos recursos naturais, para a melhoria da qualidade de viver dos organismos da Terra e a eliminação da pobreza extrema e do consumismo desenfreado. Deve visar a construção de relações sociais, econômicas e culturais capazes de respeitar e incorporar as diferenças, como: opção sexual, minorias éticas, populações tradicionais, perspectivas das mulheres e a liberdade para decidir caminhos alternativos de desenvolvimento.

                 Para SATO (2001), há a necessidade de se definir a identidade de quem atua na área da educação ambiental. Não aquela identidade simbólica de expressar o estado da alma, que tem a indecisão flutuante dos sonhos, mas uma identidade política que se consolide nas ações quotidianas, que se enraíze em pensamentos constantes e que, efetivamente, seja capaz de ousar a transformação necessária para o caminho adiante.

 

7. Conclusão


                 A educação ambiental para este século deverá responder ao desafio ambiental contemporâneo por meio da compreensão de uma mudança radical dos valores da sociedade atual e da necessidade de sua urgente transformação, para assegurar a própria sobrevivência da espécie humana e da vida em todas suas dimensões. É preciso haver uma transformação fundamental na maneira de cada um pensar de si, o meio, a sociedade e o futuro; uma transformação básica nos valores e crenças que orientam pensamentos e ações; uma mudança que permita adquirir uma percepção mais complexa da realidade com postura ética, responsável e solidária.

                 Para que haja a inserção da educação ambiental no processo educativo brasileiro são necessárias grandes mudanças no ensino superior, formador dos formadores, pois ele ainda encontra-se sustentado na fragmentação do conhecimento e ainda ancorado na pluridisciplinaridade. Além disso, é preciso vontade política por parte de nossos governantes, colocando a educação ambiental no orçamento e realizando as políticas públicas voltadas para sua implementação no Brasil.

 

8. Referências bibliográficas


Almeida, M. C. Complexidade, do casulo à borboleta. In: Castro, G. et al. (Orgs.) Ensaios de Complexidade. Porto Alegre, Sulina, 21-41p, 2002.

Boff, L. Identidade e complexidade. In: Castro, G. et al. (Orgs.) Ensaios de Complexidade. Porto Alegre, Sulina, 55-67p, 2002.

Diamond, J. Armas, germes e aço. Rio de Janeiro, Record; 625p., 2001.

Medina, N. M. Relações históricas entre sociedade, ambiente e educação, Pub. Esp. MEC, Brasília, 1996.

Medina, N. M. Educação Ambiental para o Século XXI, IBAMA, MMA, Brasília, 1997.

Medina, N. M. Os desafios da formação de formadores para a educação ambiental. In: Phlippi Jr., A e Pelicioni, M. C. F. (Orgs.). Educação Ambiental: Desenvolvimento de cursos e projetos. 2a. Edição, São Paulo, Signus, 9-27p., 2002.

Sato, M. Apaixonadamente pesquisadora em educação ambiental, Revista Educação: Teoria e Prática, UNESP, Rio Claro, 9(16): 24-35, 2001.

Saviani, D R. et alli. Desenvolvimento e Educação na América latina. Cortez, São Paulo, 1988.