HEITORAÍ MONÓLOGO

Ontem, eu da rua regressei, num banquinho me sentei, e parei para pensar... – Ao ouvir os trovões da primavera recordei Heitoraí há 40 anos atrás.

Eras tão pequena Heitoraí! Tempos em que ti chamavam de Capelinha, por causa da tua capelinha branca que em meio ao cerrado vermelho fazia um lindo contraste tão pitoresco.

Algumas casas... Gente simples, hospitaleiras, trabalhadoras... Heitoraí, cadê tuas moças bonitas, que em dia de festa cantavam melodias de nossos avós. Heitoraí cadê teus garotos levados, que pulavam descalços na rua, mas rezavam de noite ao deitar... – Heitoraí, cadê teus bobos, coitados! Rolé, Tiripe e Doroteu; que xingavam, xingavam, quando o Jorge, o Antônio Carlos e outros moleques os infernizavam... Sr. João Oliveira e Dona Joana, seguros!

Heitoraí, relembrei seus fundadores, Joaquim José de Paula e sua esposa Dona Sinhana, que estavam sempre presente na igreja e tão cheios de fé. – O Sr. Paulo de Lima que contagiava a todos com sua bondade e delicadeza.

Ah! Também e o Sr. Jorge Gama lutava para ver – te crescer, e gostava de chamar os outros: Meu filho! Lembrei também de: Honestino Correia em sua vendinha, do Sr. José Carapina, que de madrugada tocava buzina chamando a cachorrada para com o Sr. Chico Honório irem caçar...

E o Sr. Júlio de Lima e esposa Dona Luzia tão humildes! O Sr. Odílio do Bar que contagiava o arraial com seu linguajar no alto falante assim: Oi gente! Desça cá pra baixo, venha comer a broa da Júlia que acaba de sair do forno e está quentinha, quentinha!

Relembrei com saudades a Dona Santa, primeira parteira com seu linguajar baiano e aquele cachimbo, fumando e cuspindo, que graça!

O Sr. Oscar Borges, tão político e muito amigo, sua esposa Dona Benedita, mãe dos pobres ê Chiquita tão simples! – O Sr. João Miranda indo e vindo da fazenda para Heitoraí.

Lembrei da Senhora Dona Bem, tão zelosa com a igreja católica, incentivando as festas sem se cansar.

E o Sr. João Carneiro em sua casinha de adobe com a filharada... Jovina, não tapas na língua – Também os senhores Álvaro Preto, Álvaro da Dona Gersa em sua vendinha e a Ducimila no caritó. Seu Antônio Acácio, esposa, Aduílio tão chik! Seu Domingo Duarte, bebia aquele marafá e tocava os bailes com seu pé de bode, tocando o timbó com fumo...

Parece – me vê, seu Zezinho pai da Hozana e avô do Zeca, bebendo pinga as escondidas e cai aqui, cai acolá...

Seu Aurelindo bom pedreiro, baiano arretado...

Recordo do Sr. Ridomar, do Sr. Valtinho e do Sr. Geraldo Borges, comerciantes zelosos e grandes amigos.

O Sr. Neco Rangel, tão magro, porém de grande inteligência e muito político. - Sr. Joaquim Crisóstomo e família, batalharam por ti Heitoraí.

O Sr. Joaquim Teodoro de Souza que deu a Heitoraí, um filho chamado Ary Teodoro de Souza, trabalhador incansável por teu progresso, chegado a ser prefeito em dois mandatos e fez grades obras...

Com saudades de tudo e de todos relembrei a tua primeira escola com suas professoras Dona Aparecida Borges e Dona Geni Borges, incansáveis mestras! Também Dona Maria Nunes que como uma flor, tombou e caiu da haste. - Dona Zita Nunes em seu Cartório casava e registrava com alegria. Zé Eustáquio, bebia sim!...

E tu Colégio “Dom Abel”, palco do saber, que a não por  pequena que seja alcança a instituição. Perdeste, um ex-diretor Sr. Amaral que tanto fez por ti!

Vei-me também na lembrança teus nordestinos,  tão engraçados que  adotaram Heitoraí como sua terra natal e trabalharam em teu chão: Antônio Mateus, tão sistemático e Dona Rosa tão alegre! Sr. Antônio Tomaz, simples e tão trabalhador; Sr. João Paraíba, Dona Chiquinha e Dona Maria Paraíba, Sr.  João Liberato e Dona Mariana, todos cabras da peste!

O Sr. Carlindo Pereira Duarte, que gostava de pregar peças nos outros, era tão alegre! Foi Prefeito, zeloso, cuidadoso e fez bastante por ti Heitoraí.

Tinha os farmacêuticos: Pedro Xavier, Sr. Zico e o Sr. Armando, que  cuidavam com carinho dos teus doentes.–Lembrei também do Sr. Joaquim Cizesnande e Esposa Dona Nilda que te amavam Heitoraí.

E teus jovens que nos deixaram saudades, pois precisavam viver para te fazer progresso: Sílvio, Paulo Xavier, Lúcio Miranda e outros... - Seu  Moura em sua perua... Dona Maria do Jerominho, Dona Maria do Geraldo Heitor, também os deixaram saudades.

Tantos outros vultos que possuíste Heitoraí que até fugiram – me dá lembranças!

Ah! também o Sr. Margarido Barbosa com sua padaria... Tínhamos pães todos os dias.

- Heitoraí, cidade jovem com lembranças das velhas gerações, Heitoraí serás eterna e eternamente viverás no meu coração.

Queria ver-te no passado ainda, quando eras, a capelinha, para contemplar as tuas paisagens, vê teu povo dos quais recordei e vê teus cafezais...

Pular na rua com a meninada, brincar de roda e de cirandinha, depois descer a ladeira, ir ao rio Uru, rezar a Ave-Maria e nada mais.

Heitoraí, te Amo!

Enilson (+)